sábado, 23 de agosto de 2008


Por Telga Lima

Para Cauã, o sentimento que enxergo em meu irmão.
Cauã,
Queria quebrar as tuas costelas naquele abraço, queria prender-te bem dentro das minhas veias.
Proteger-te do acaso, mas eu não estava lá. Ninguém pode com o acaso, nem meus pensamentos em ti, nem a sensação de tuas costelas ainda em meus dedos naquele abraço caloroso e tão meu.
Quero que saibas que meus pensamentos e todas as minhas forças estavam ali, deixei-as dentro da casa inteira, enquanto tive que ir. Deixei-a pelos quartos, pelo chão aonde pisavas, pelos seus objetos, nos teus pés, dentro dos teus sapatos.
Quero que saibas que minha doçura estava lá perto de ti, minha risada, meus gestos de carinho, minha alegria da tua presença.
Quero dizer que quando tive quer ir aquela hora, apressadamente, era pra trazer comida pra sua boca, alimento pra o teu corpo e tua alma.
Chamaste-me algumas vezes, rodeando-me, chamando-me insistentemente e eu respondia também insistentemente, sem entender que daí a pouco não ouviria mais chamar-me outra vez.
Aquela foi a última vez que ouvi chamar-me.
Quero que saiba que eu estava sim, estava, mas tive que sair e quando voltei eras tu quem não mais encontrava-se lá, esperando pelos meu abraço de quebrar costelas, eras tu quem não estava mais lá pra eu sentir tua pele quente adormecer na minha.
Sinto tanto que tenhas ido tão cedo, antes do anoitecer, queria você em meu colo como dantes.
Fecho os olhos e os teus brilham bem diante dos meus ainda, e será assim por toda a vida, até que eu te encontres em algum lugar e pode ter certeza que é o brilhos dos teus olhos que vai fazer se abrir um clarão, por essas vielas de bruma pelas quais tento seguir indiferente.
Sigo pelos seus irmãos Rayane, João Vitor e Rayra.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

AGRADECIDA PELA GENTILEZA

Passe esta atitude adiante
Por Alberto Coutinho - Jornalista
Na correria do dia a dia temos convivido com um inimigo pouco visível, que corrói as regras básicas do convívio social: a falta de gentileza. A boa educação está cada vez mais banalizada e as pessoas, principalmente os jovens, muitas vezes se envergonham de ser gentis, respeitosas e amáveis com as outras. Expressões como “muito obrigado”, “por favor”, “com licença” e “desculpe” estão praticamente banidas do vocabulário das pessoas, que acham que não há tempo para “frescuras”, como costumam classificar as boas maneiras no relacionamento interpessoal.Cruzar com um desconhecido, ou até mesmo com um colega de trabalho ou um vizinho sem cumprimentá-lo, é algo corriqueiro, pois as pessoas nem percebem a importância de se desejar um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. Cumprimentar o motorista e o cobrador ao entrar num ônibus, um zelador de um prédio ou um operador de caixa de um supermercado, faz toda a diferença na forma de como estas pessoas lhes atendem.Atitudes simples, como abrir uma porta de um restaurante ou de um banco e segurá-la para que um desconhecido entre, é uma cena rara e, quando acontece, não há qualquer tipo de agradecimento. Abrir a porta do carro para uma senhora entrar é “coisa do povo antigo”. Reduzir a velocidade para permitir que um motorista entre numa via pública movimentada, nem pensar. Ninguém nunca tem tempo para “deixar” alguém, que nunca viu antes, passar à frente.É lamentável que o ser humano esteja perdendo a capacidade de respeitar e preservar as boas regras do convívio social. Tratar mal, respondendo grosseiramente a alguém, é fato tão corriqueiro que as pessoas, na maioria das vezes, nem percebem o quanto foram indelicadas.Li num jornal de Mossoró (RN) que uma escola daquela cidade está desenvolvendo um projeto, que envolve alunos, funcionários e familiares, para o resgate de atitudes simples como pedir desculpas, agradecer e pedir “Por favor”. Acredito que este é o caminho e que as crianças podem contribuir muito para reverter esta situação de falta de respeito ao próximo.Mas é preciso contaminar toda a sociedade com o “vírus da gentileza”, como está fazendo uma rede de cinema de um dos shoppings de Natal, que lançou uma campanha concedendo desconto de 50% no ingresso, no ato da compra, ao cliente que der um sorriso ao caixa da bilheteria, neste mês de agosto. Parece pouco, mas o simples gesto de sorrir para alguém já é uma atitude de cortesia.Não podemos perder de vista nossos filhos, que acham que tudo que a gente faz não passa de obrigação de pai e mãe. Temos que ensiná-los a reconhecer o esforço e a agradecer os favores que lhes fazemos no dia a dia, por mais triviais que sejam. Acho que a família é a base de tudo para a construção de bons relacionamentos. Por gentileza, passe esta atitude à diante.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Dica de Filme - "filme de amor".


EXPRESSÃO AMOR

Cão Sem Dono é como um verbo que se conjuga para todas as pessoas.

Por Eduardo de Araújo Teixeira.


Há alguns anos uma amiga mandou um e-mail perguntando se eu conhecia algum filme que tratasse de amor. Ela frisou, não queria uma "comédia romântica", mas um filme de "amor". Fiquei um tanto atordoado, pois foi quando percebi que a maior parte dos ditos “filmes românticos" tratavam, na verdade, da falta de amor, de todos os entraves que no desfecho são desatados e desembocam em um happy end . Mas se fosse hoje, para recomendar um filme que trata do amor, recomendaria Cão Sem Dono , de Beto Brant e Renato Ciasca.

Brant faz um cinema urbano, ágil, inteligente, com personagens jovens e tramas bem construídas. Cão Sem Dono comove o espectador por sua incomensurável tristeza. Beto Brant pôs finalmente de lado a vertigem da periferia, as peripécias da “ação”, o embate verbal que imperava em seus filmes e finalmente mergulhou mais profundamente no sujeito. É um filme sobre uma geração que entristeceu porque não vê muita saída no Brasil pós-tudo. O protagonista Ciro é seu espelho, um tradutor que não traduz, que quase não fala; às vezes balbucia umas palavras em russo (Ah, os angustiados russos!!!). O filme se abre ao espectador com o casal protagonista na cama, onde Ciro vai, sem volteios ou preâmbulos, ser ternamente devorado pela bela e jovem Marcela. Mais do que as idiossincrasias de um adolescente tardio perdido e uma menina linda que modela, -- porque seu grande sonho é viajar (um viajar por viajar, um viajar para conhecer o mundo, um viajar que é para conhecer-se), -- Cão Sem Dono é um filme de amor.

Preste atenção, não é apenas "uma história de amor", mas um filme SOBRE o amor. Amor que na história começa pelo sexo casual. Amor que se espraia pela caridade (recolher o cão vadio). Amor que se expressa em jantares entre pais e filhos. Um amor-amizade, que nasce com o gentil porteiro do prédio. Amor pelo perdão (com o motoqueiro que atropela a sua esposa), amor pela arte (e que não se explica, nas telas pintadas sobre jornais), o solidário amor do cuidar (dos pais e de Marcela adoentada), amor, por fim, que se revela desesperada paixão por Marcela, até seu apaziguamento em ternura no final do filme.

sábado, 9 de agosto de 2008


"POR QUE ESCREVO?
Escrevo pra tentar me entender
E também por saber
Que meus textos levam-me a você
Que saboreia cada palavra
Com boca bem gulosa...
Sempre quando pode me ler.
Também por saber que palavras são poderosas
Enlaçam e atraem as pessoas...
Que passam a caminhar juntas
De mãos dadas... coisa boa!
Palavras abrem caminhos
Que apresentam-se obscuros
São luzes: azuis, verdes...
Acendendo em pontos escuros.
As palavras nos uniu
Rimos com e delas...
Acalentam nossas dores
Mesmo as mais singelas.
Palavra não tem preço
Tem valor inenarrável...
Especialmente quando são
Pronunciadas por pessoa amável.
A palavra tem peso e cor
Elas levantam e fazem cair...
Pulverize com aroma de amor
A palavra que de sua boca sair".

Fátima Feitosa

segunda-feira, 21 de julho de 2008




Por Telga Lima

C a m i l a - a n g ú s t ia - f u m a ç a
Ê x t a s e – I n s ô n ia – I n t e n s a
E x t r a v a g a n t e – E x t r a v a s a r
P a i x ã o – p a s s i v a – p a s s i o n a l
A m a r r a s – A r m a – A m o r
C a mi l a – D u l c í s s i ma – D o l o r e s
D o u r a d a - d u ro – D O R

Camila Lopes saiu da autobiografia ficcional de Clarah Averbuck. O filme tem base nos livros (Máquina de Pimball e Pulo do Gato), e Camila transformou-se em - Nome Próprio - pelas mãos do cineasta Murilo Salles e da atriz Leandra Leal. Deram vida à poesia irreverente e cibernética da menina meiga com ares de diabo. De sua conexão discada viciante e lenta, ela é viciada em uma vida desconectada das regras do manual da “boa moça”, e, sozinha escreve seu destino de frustrações e literatura. Camila é salva pela palavra.
Sinceramente, adorei. O filme é poesia pura. Vou logo avisando que não sei o que pensam os cinéfilos a respeito, nem bisbilhotei os sites por aí pra inteirar-me do quê andam dizendo, pra não influenciar-me sobre...
Ouvi um comentário ali, outro acolá, mas fiz ouvidos surdos.
A personagem é fascinante e o sexto longa de Murilo Salles se enche de palavras na tela que tentamos devorar loucamente. E pra o meu deleite ele exagera nos closes, o que muito me agradou também. De quebra ouvi a singela - ...Vai chover pingos de amor. A vida passa telefono e vc já não me atende mais... E por aí vai (rs). Alguém conhece?
Ah, um detalhe importante que soube é que Viviane Mosé, filósofa e esritora, foi responsável pela edição final dos textos escritos e ditos em off pela Camila no filme. Pra quem não a conhece ela é dona do poema abaixo:

Outra carta(Viviane Mosé)

"Eu não sei se por esse vento frio entrando pela janela ou quem sabe por esse vento frio entrando pela janela ou mesmo por esse aconchego de meias de lãs e esse vento frio entrando pela janela ou por qualquer que seja o que for [eu quero te dizer tantas coisas: Todos os passos que dei um a um [e todas as coisas que passaram e tudo que foi se misturando ao que eu era. Pra você ir sabendo o que sou [posso cantar cada música que ouvi e cada livro e cada bula de remédio e cada rosto e cada tostão emprestado cada choro. Os avisos e as ruas [os andaimes as manchetes os incêndios os sinais. Todas as manhãs. Todos os dias santos. Tudo que me atravessou eu quero te mostrar o corpo que ganhei esses anos os fios e as falhas a voz e o avesso e o tempero e a calma. Quero te contar o silêncio alcançado a custa de guerras e as terras que plantei e os temporais. Os temporais. E os nós na garganta. É maio e eu morro de vergonha de falar de amor. Mas esse vinho quem sabe veio aos verbos mostrar que preciso de sua boca e seu cabelo e seu cheiro e sua mão: eu não sou só verso sou um corpo em lençóis de pele a te vestir como luva. Meu corpo a te vestir como luva. Embriagada de vento e vinho penso na morte e em seu pau duro".

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Cuba, ela é a princesa da casa!


Leio enquanto ela me observa
Ando enquanto ela tenta pegar meu pé
Sento e ela vem pro meu colo
Choro, ela fica quieta e lambe, de leve, a minha mão.
Durmo, e ela? Dorme.
Desperto e ela está á espreita
Aliso seu pêlo, ela se derrete e eu me derreto junto.
Assim é minha pequena persa-linda-Cuba-amor.
Por Telga Lima

Era cinza, de um cinza fúnebre aquela calçada torpe por onde pisavam meus pés.
Descalços, os pés, não apenas os meus pés, mas descalços estavam os meus sentidos, com pisadas que oscilavam, entre o cinza do cimento velho e a bruma que chegava, quase sempre com os tons acinzentados do meu pensar de menina desprotegida, do meu pesar de mulher de poeira cinza claro.
Uma névoa cobria os meus olhos enquanto eu pisava e tentava seguir em frente, sem nenhuma nitidez, sem clareza, sem vislumbrar o outro lado.
Passavam por mim transeuntes que poluíam meus olhos de um colorido mal quisto que me faziam franzir a testa e detestar o colorido que maculava meu semblante de uma cor viva, que eu não desejava ver. Que eu não podia enxergar.
Lúgubre eram as paredes das casas, descascadas e gastas pelo tempo que impiedosamente faz desbotar paredes, que deslustra tudo, rouba o viço que enfeitam as fachadas. O tempo, que deixa á mostra as marcas do cinza, que empalidece, tira o brilho. Por trás das “fachadas”, é sempre o cinza que aparece, com ar sarcástico, risonho, alheio ao colorido em volta.
Meio trôpega ainda sigo virando ruas, pisando calçadas. Ignoro o tempo que se prepara, escurece com cara de chuva, com cara de cinza. É inevitável e os pingos caem e lavam minha pele de menina colorida, que oscila entre tons vibrantes e mornos, que oscila suas pisadas nas calçadas, que oscila entre os transeuntes, que tenta se proteger da chuva, da bruma, da névoa, do cimento velho, do riso sarcástico do tempo que machuca o seu semblante de mulher de poeira cinza claro.
Virei à última rua e já era dia de um vermelho intenso, “Kahlo”.
Virei à última esquina e já era vivo de uma cor “frida”
E fui seguindo em frente.